EM BUSCA DA IGUALDADE

“Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.”

(Karl Marx)

Uma sociedade democrática, justa e humanitária pressupõe o respeito a todas as pessoas e a garantia de direitos, independente de sexo, cor, idade, condições físicas, mentais e orientação sexual. Esta é uma disposição de nossa Lei maior, desde 1988. Cabe aos conselhos promoverem a discussão na sociedade, estimulando a transformação da mentalidade antiga para estes novos conceitos, visão de homens e mulheres, combatendo as desigualdades e valorizando a diversidade humana, em que todas as diferenças são fundamentais.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Relato de uma aluna do Curso Gestão em Políticas Públicas:

Apesar das diversas mudanças na política racial, às mulheres negras continuam obcecadas com os seus cabelos, e o alisamento ainda é considerado um assunto sério.  Insistem em se aproveitar da insegurança que nós mulheres negras sentimos com respeito a nosso valor na sociedade de supremacia branca!
Nas manhãs de sábado, nos reuníamos na cozinha para arrumar o cabelo, quer dizer, para alisar os nossos cabelos. Os cheiros de óleo e cabelo queimado misturavam-se com os aromas dos nossos corpos acabados de tomar banho e o perfume do peixe frito.

Não íamos ao salão de beleza. Minha mãe arrumava os nossos cabelos. Seis filhas: não havia a possibilidade de pagar cabeleireira.  Naqueles dias, esse processo de alisar o cabelo das mulheres negras com pente quente (inventado por Madame C. J. Waler) não estava  associado  na minha mente  ao  esforço  de  parecermos  brancas,  de  colocar  em prática  os  padrões  de  beleza  estabelecidos  pela  supremacia  branca. Estava  associado somente ao rito de iniciação de minha condição de mulher. Chegar a esse ponto de poder alisar  o  cabelo  era  deixar  de  ser  percebida  como menina  (a  qual  o  cabelo  podia  estar lindamente penteado e trançado) para ser quase uma mulher. Esse momento de transição era o que eu e minhas irmãs ansiávamos.
Fazer chapinha era um ritual da cultura das mulheres negras, um ritual de intimidade. Era um momento exclusivo no qual as mulheres (mesmo as que não se conheciam bem) podiam se encontrar em casa ou no salão para conversar umas com as outras, ou simplesmente para escutar a conversa. Era um mundo tão importante quanto à barbearia dos homens, cheia de mistério e segredo.

Tínhamos um mundo no qual as imagens construídas como barreiras entre a nossa identidade e o mundo eram abandonadas momentaneamente, antes de serem restabelecidas. Vivíamos um instante de criatividade, de mudança.
Eu queria essa mudança mesmo sabendo que em toda a minha vida me disseram que eu era "abençoada" porque tinha nascido com "cabelo bom" – um cabelo fino, quase liso –, não suficientemente bom, mais ainda assim era bom. Um cabelo que não tinha o "pé na senzala", não tinha carapinha, essa parte na nuca onde o pente quente não consegue alisar. Mas esse "cabelo bom" não significava nada para mim quando se colocava como uma barreira ao meu ingresso nesse mundo secreto da mulher negra.

Eu regozijei de alegria quando a minha mãe finalmente decretou que eu poderia me somar ao ritual de sábado, não mais como observadora, mas esperando pacientemente a minha vez. Sobre este ritual escrevi o seguinte:
Para cada uma de nós, passar o pente quente é um ritual importante. Não é um símbolo de nosso anseio em tornar-nos brancas. Não existem brancos no nosso mundo íntimo. É um símbolo de nosso desejo de sermos mulheres.
É um gesto que mostra que estamos nos aproximando da condição de mulher [...] Antes que se alcance a idade apropriada, usaremos tranças; tranças que são símbolo de nossa inocência, juventude, nossa meninice. Então, as mãos que separam, penteiam e traçam nos confortam. A intimidade e a sina nos confortam.
Existe uma intimidade tamanha  na  cozinha  aos  sábados  quando  se  alisa  o  cabelo, quando se frita o peixe, quando se fazem rodadas de refrigerante, quando a música soul flutua sobre a conversa.
É um instante sem os homens. Um tempo em que trabalhamos como mulheres para satisfazer umas as necessidades das outras, para nos proporcionarmos um bem-estar interior, um instante de alegrias e boas conversas.

Levando em consideração que o mundo em que vivíamos estava segregado racialmente, era fácil desvincular a relação entre a supremacia  branca  e  a  nossa  obsessão  pelo cabelo. Mesmo sabendo que as mulheres negras com cabelo liso eram percebidas como mais bonitas do que as que tinham  cabelo  crespo  e/ou  encaracolado,  isso  não  era abertamente  relacionado  com  a  idéia  de  que  as  mulheres  brancas  eram  um  grupo feminino mais atrativo ou de que seu cabelo liso estabelecia um padrão de beleza que as mulheres negras estavam lutando para colocar em prática.

Relato de uma aluna do Curso em Gestão de Políticas públicas em gênero e Raça - GPPGR/UFES

Ações desenvolvidas nas escolas

As origens da idéia de raça e evolução histórica da forma de como elas foram construídas nas ciências naturais até o século XIX e como foi repensada nas ciências sociais, na Antropologia em particular a partir do século XX. Veremos também, como o racismo foi desmontado enquanto ciência, por meio de argumentações da antropologia moderna, já na década de 1920, e depois pela ciência biológica baseada nos conhecimentos genéticos nas décadas posteriores. O racismo aparece com uma roupagem científica, é um tema estudado por vários filósofos e pensadores. Cada um tenta descrevê-lo da sua maneira e tenta mostrar onde o racismo aparece dentro de um processo histórico e até nos dias atuais.
Podemos perceber que o racismo é algo que existe no meio social há muito tempo, ele tem causado muitos transtornos e constrangimentos. O racismo está sendo abordado enquanto ciência, mas mesmo assim, não deixa de expressar sua idéia de ser algo que é prejudicial e negativo a humanidade. O gestor é um líder, cabe a ele a função de possibilitar na escola, empresa ou qualquer meio social em que atua um ambiente agradável e propício para desempenhar a sua função e desenvolver o seu trabalho de forma democrática. O gestor deve valorizar as pessoas as quais mantêm uma relação social de forma ética, crítica e participativa.
Não pode haver discriminação racial ou qualquer forma de preconceito no ambiente em que atua. As oportunidades devem ser oferecidas a todos igualmente. Entretanto, mesmo com o surgimento de leis que atuam contra o preconceito, nós sabemos que o racismo ainda predomina na nossa sociedade, pois, ainda existem pessoas que julga o outro pela aparência e mantém certo distancia, porque acham que são melhores do que o outro. Existem muitas formas de preconceito racial, e o Gestor deve agir juntamente com as entidades sociais criando e executando leis e projetos que envolvam a participação de pessoas independente de sua raça, cor ou etnia. Não podemos desistir temos que nos unir na luta contra o racismo. Só vamos conseguir se desenvolvermos ações que compartilhem uns com as outras idéias que contribuam nesse processo.  
Na Escola São João do Sobrado em Pinheiros, os professores e a equipe técnica estamos desenvolvendo um projeto que faz um resgate a cultura africana. Através desse projeto, estamos valorizando a cultura de um povo que embora, tenha sofrido muito pela pobreza, escravidão, preconceito, é um povo que contribuiu muito na formação de vários outros povos. Podemos nos maravilhar com as danças, comidas típicas, diferentes religiões, todo o processo histórico, econômico e social. Não podemos julgar as pessoas por pertencer a uma nação diferente e sim valorizar o que a mesma tem de melhor, bem como compartilhar idéias, valores e costumes.

Na nossa cidade existe também o grupo de capoeira, que é composto por jovens e crianças de várias classes sociais. As pessoas que freqüentam, são de bairros diferentes. Os professores são pessoas bem instruídas, bons profissionais ensinam os alunos a respeitarem uns aos outros, independente de sua origem ou classe social. Nessas aulas as pessoas que freqüentam recebem instruções de boa conduta, ou seja, como devem se comportar em casa, na escola, na igreja em qualquer lugar e o mais importante, aprendem a se defender.
Existem também escolinhas de futebol que reúnem crianças e jovens de todas as idades e classes sociais. No CRAS de Pinheiros são oferecidas oficinas de pintura, corte, costura depilações, manicure, cabeleireira, em fim ações que ajudam as mulheres a se aperfeiçoarem em alguma área de trabalho. Esse trabalho é maravilhoso, pois ajuda muito a superarmos o preconceito e valorizar o que cada mulher independente de raça, cor ou etnia tem de melhor para oferecer e também a se tornarem boas profissionais.


Relato de uma aluna do Curso em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça

Plano de Ação - Pólo Pinheiros - Grupo 04

OBJETIVOS:
-Identificar e apresentar o fuxico como artesanato cultural afro da cidade.
-Mostrar que a cultura mucuriciense tem raízes afro.
-Fomentar uma exposição natalina de fuxico no COPAF- Centro de Comercialização de Produtos da Agricultura Familiar.
-Incentivar grupos da secretaria municipal e trabalho e Assistencia Social de Mucurici a expor peças de fuxico, valorizando o trabalho artesanal.
-Atrair mucuricienses e turistas para o COPAF, atentando a questão afro.

JUSTIFICATIVA:
Durante os trabalhos de identificação de artesãos para feiras e exposições turísticas, observamos que mais de 100 pessoas no município de Mucurici, confeccionam artesanatos de fuxico, tornando-o o artesanato de maior valor cultural da cidade.

O fuxico, de idade secular, tem a sua criação atribuída aos escravos africanos.
O termo “fuxico” é sinônimo de “fofoca” (cochicho) e, segundo o folclore, ele recebeu este nome uma vez que as mulheres se reuniam para costurar e cochichar sobre a vida alheia.
O fuxico esteve associado à classe social de baixa renda e/ou comunidades rurais. De uma década para cá, com o surgimento da customização e a introdução de novas técnicas artesanais na moda e na decoração é que ele começou a ser mais valorizado.
De acordo com o jornal A Gazeta de 15/11/2011, Mucurici é o terceiro município do ES, como maior número de pretos e pardos.
De acordo com o IBGE, desde 2010, as pessoas vem assumindo mais a sua cor.
Mas, ainda é necessário um trabalho de valorização histórico cultural da raça.

Buscando proporcionar a identificação da cultura Afro como parte da formação cultural da cidade de Mucurici, a Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte de Mucurici, com a parceria da Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social, criou o projeto NATAL DE FUXICO.


DESCRIÇÃO DA AÇÃO:
O Projeto Natal de fuxico nasceu para identificar o “FUXICO” como artesanato afro cultural do município de Mucurici e apresentá-lo como fonte de renda.

Alunos do Pro jovem Adolescente, PETI e os Grupos da Maior Idade, estão confeccionando as peças (fuxicando) que serão transformadas em ornamentação natalina.

AS AÇÕES ENVOLVEM:
-planejamento;
-apresentação dos projetos aos parceiros (Secretaria de Trabalho e Assistência Social);
-divisão de tarefas;
-compra de materiais e distribuição;
-instruções sobre o surgimento do fuxico e sua importância  histórica para a cultura local, como confeccionar este  artesanato e monitoramento;
-confecção das peças de fuxico pelos alunos do PETI, Pro jovem adolescente e grupos da Melhor Idade;
-coleta dos fuxicos e montagem das peças natalinas;
-pesquisas realizadas pelos alunos dos projetos a alguns artesãos de fuxico da cidade;
-montagem da exposição;
-distribuição de panfletos informativos durante a exposição ( de 17 a 23 de dezembro no COPAF ).
(carga horária em anexo)

CRONOGRAMA:
Para planejamento:
20 h
135h
TOTAL: 155 horas (em anexo)
Para execução:

POPULAÇÃO BENEFICIADA:
Serão beneficiados:
-Crianças e adolescentes participante do PETI e Projovem Adolescente e grupos da Melhor Idade do Município de Mucurici.
-População Mucuriciense
-Turistas de Minas Gerais, Bahia e do Espírito Santo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Pobreza no Brasil tem face negra e feminina, diz Dilma Rousseff

A presidenta Dilma Rousseff afirmou, no dia 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, que “a pobreza no Brasil tem face negra e feminina”. A declaração, feita em Salvador, destaca a necessidade de reforçar as políticas públicas de inclusão e as ações de saúde da mulher.


Em discurso, a presidenta explicou por que as políticas de transferência de renda têm foco nas mulheres, e não nos homens: elas “são incapazes de receber os rendimentos e gastar no bar da esquina”. Dilma realçou que, nos últimos anos, inverteu-se uma situação que perdurava no país, quando negros, índios e pobres corriam atrás do Estado em busca de assistência. Agora, o Estado é que vai em busca dessas populações, declarou.
Ao defender a necessidade de ações de combate à pobreza, a presidenta citou o Programa Brasil sem Miséria, cujo objetivo é retirar 16 milhões de pessoas da pobreza extrema. No discurso, ela destacou ainda a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, no ano passado, além da obrigatoriedade do ensino da história afro-brasileira nas escolas.
Dilma apontou também o fato de a data do evento coincidir com a da morte do líder negro Zumbi dos Palmares e com o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado no domingo.
A presidenta ressaltou que, embora o País tenha a segunda maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria, a discriminação persiste: os afrodescendentes são os que mais sofrem com a pobreza e o desemprego. No discurso, além de lembrar o papel central do Continente Africano na política externa brasileira, Dilma enfatizou o fato de a América do Sul ser um dos continentes que mais crescem, apesar da crise financeira que começou em 2008. De acordo com a presidente, a adoção de políticas desenvolvimento do mercado interno pelos países sul-americanos tem sido uma barreira contra os efeitos da crise.
Fonte: Terra (com adaptações)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Unidade 4 - Movimento Negro e Movimento de Mulheres Negras: uma Agenda Contra o Racismo

TreVozes femininas - O ativismo das mulheres negras brasileiras



O ativismo de mulheres negras não apenas na sociedade brasileira, mas em toda a história da diáspora, ultrapassa as demarcações históricas impostas pelas datas que marcam o início do feminismo no mundo. Muito antes das mulheres buscarem   direitos iguais no mercado de trabalho, as mulheres negras eram a principal força de trabalho que impulsionava o crescimento do Brasil como nação. De Dandara a Luiza Mahin e de Carolina Maria de Jesus até Benedita da Silva, a história das mulheres negras é marcada por luta, militância e pela bravura necessárias para enfrentar muitas vezes triplas jornadas e sofrer duplamente com a discriminação.
Com a intenção de apoiar essas mulheres nas batalhas do dia a dia e partilhar experiências que possam servir como incentivo para continuar a luta, foram criadas no decorrer da história, entidades de mulheres negras com as mais diversas características.
Dentre essas instituições está a ONG carioca Criola, que há duas décadas atua na formação de mulheres negras, para que essas se tornem agentes de transformação da sociedade, com ações voltadas para as áreas da saúde, economia, trabalho, direitos humanos, ação política e articulação com movimentos sociais, entre outras.

Dentre as fundadoras da Criola está a coordenadora geral, Jurema Werneck, que vê o ativismo como algo latente as mulheres negras brasileiras e aponta como ponto de partida da luta dessas mulheres, o exemplo transmitido pelas Ialodês, orixás femininas,  representadas na mitologia africana sempre por personalidades fortes e pela autonomia marcada significativamente pela maneira pelas quais elas impõem sua vontade aos orixás masculinos que fazem parte do panteão.

Em entrevista exclusiva a Afrobrasnews, Jurema Werneck, fala sobre a luta de mulheres negras, as conquistas já obtidas e sobre o que ainda é necessário enfrentar, nessa jornada pela sobrevivência.

Afrobrasnews - A Criola existe há aproximadamente duas décadas, quais as necessidades que motivaram a criação da instituição e como foi o processo para que essa se concretizasse?
Jurema Werneck 
- Primeiro, a necessidade de dar continuidade a uma herança das mulheres negras, que se refere à atuação política - desde sempre, fomos ativas e ativistas. Criola é uma forma de passar adiante esta herança.
Segundo, a certeza de que o racismo patriarcal tem um funcionamento diferenciado segundo o sexo e a identidade de gênero das pessoas. Assim, uma vez que mulheres, homens, lésbicas, homossexuais e transexuais vivenciam o racismo de modo diferente, é preciso dar visibilidade a seus diferentes mecanismos, bem como   às diferentes formas de enfrentamento necessárias. Ao lado de reconhecermos a necessidade urgente de tornar explícitas nossa recusa e condenação às opções violentamente sexistas em curso na sociedade em geral e no interior das comunidades negras, que buscam anular nossa potência e capacidades de ação.
Afrobrasnews -  Nesse período quais são os avanços que vocês observam na luta das mulheres negras no Brasil e o que ainda precisa ser conquistado?
Jurema Werneck 
- São 19 anos de existência. O mundo não muda tão rápido. Mas novos posicionamentos, novas condições de luta e participação na sociedade podem ser percebidas na sociedade brasileira. Um forte exemplo são as novas intelectuais negras: uma conquista da luta. Nós que começamos na década de 80 ou 90 tínhamos grandes referências intelectuais negras, mas eram poucas. Falo de mulheres como Lélia Gonzáles, Beatriz Nascimento e outras poucas, que colocaram seu pensamento, seu talento, sua visão de mundo como suporte às nossas lutas de transformação. Agora estamos formando um número muito maior de intelectuais - espero que elas respondam e percebam o tamanho de sua responsabilidade.
Podemos verificar também que, ainda que o sexismo continue em vigor, não é tão esdrúxula, na sociedade, a visibilidade de mulheres negras em luta falando e seu próprio nome.

Afrobrasnews - Na Criola vocês desenvolvem projetos em diversas áreas. Qual o perfil das mulheres que procuram a instituição e que tipo de atividades são desenvolvidas?
Jurema Werneck - Nosso trabalho é de e para mulheres negras. Assim, os perfis são os mesmos que nós temos: diferentes escolaridades, diferentes faixas de renda, diferentes possibilidades de luta, diferentes graus de experiência das violências do racismo patriarcal. Nossa tarefa é propor a elas e com elas novas estratégias de ação, compartilhar informações e conhecimentos  e atuar juntas nas lutas que são necessárias.

Afrobrasnews - Em sua opinião, quais são as políticas públicas voltadas para a questão de gênero, especialmente ao se tratar de mulheres negras no Brasil, que ainda precisam ser construídas pelo governo?
Jurema Werneck 
- Apesar da forte atuação de Criola no campo da defesa e análise de políticas públicas das diferentes esferas (municipais, estaduais e nacionais), não   encontramos ainda nenhuma política efetiva e consistente que  tenha as mulheres negras como prioridade. Isto dá a medida de quanto temos que caminhar e do tamanho da dívida brasileira conosco - especialmente se considerarmos que estamos há 9 anos com governos nacionais de esquerda, que tiveram e têm mulheres negras em seu primeiro escalão! É preciso que estes governos, administradores da riqueza produzida em grande parte por nós, mulheres negras, nos devolvam o que é nosso por direito - em forma de políticas de educação, de saúde, de trabalho e emprego, de moradia, de transporte e etc - com vigor suficiente para eliminar as disparidades que existem no Brasil entre as mulheres negras e as mulheres brancas. E, principalmente, acabar com o privilégio dos homens brancos na apropriação das riquezas nacionais. Foi para isso, por sinal, que estes governos receberam novos votos.
Afrobrasnews - Você acredita que o fato de a presidente do Brasil ser uma mulher pode impulsionar a criação dessas políticas?
Jurema Werneck 
- Acho que o fato de termos uma mulher na Presidência é uma consequência de nossa luta - e que dá a ela uma responsabilidade insuperável de fazer valer a herança e o mandato que recebeu. Mas para isso, é preciso, mais do que ser mulher, estar disposta a romper com o racismo patriarcal e derrubar toda a rede de privilégios que ele deixa disponível para todos os que são brancos, inclusive esta mulher que está na presidência. É preciso também que nós mulheres negras nos posicionemos nas lutas por nossos direitos de forma consistente, recusando cooptações e buscando novas estratégias para darmos os passos necessários à mudança real.
Por: Daniela Gomes



Movimento Negro e Movimento de Mulheres Negras: 
Uma Agenda Contra o Racismo.

Os principais conceitos apresentados são os movimentos negros no início do século XX; as associações com intuito de organização com fins de proteção social; o constrangimento de cunho racial; participação da imprensa negra como suporte para a defesa dos negros (as); todos os tipos de frente, União e Movimentos Negros Brasileiros contra a discriminação racial; Atuação dos negros em papéis principais do TEM com participação feminina; Conselho nacional das Mulheres Negras; Requisitos básicos de cidadania como Certidão de Nascimento, carteira de trabalho e apoio jurídico; Desarticulação da FNB durante a vigência do Estado Novo; Ditadura Militar; Ação coletiva negra antirracista; democratização do país; Lazer para a juventude negra; Soul Music e moda Black Power; Lutas contra o racismo e o sexismo e pela emancipação; Sindicalismo e mobilizações estudantis; Seguimento progressista do país;  Cidadania e afirmação ético-racial; Mobilizações antirracistas nacionais e lutas pelos direitos civis; Preconceito de cor e as desigualdades raciais; Discriminação e desigualdades raciais no Brasil; Desenvolvimento do capitalismo brasileiro; Movimento feminista e sociais;
 As mulheres negras presentes e atuantes no movimento negro graças a sua formação e organização; A resistência do negro a quase quinhentos anos de sofrimento físico e moral; O/A negro como participante da formação histórico-social do país; Sofrimento de discriminação recriada na sociedade contemporânea; Exploração da classe ploretária tanto para negros como brancos pobres sofrem tais efeitos; Mulheres negras a papéis  sexuais ; processos de socialização; Distribuição desigual de poder; As mulheres negras entre as classes sociais mais desprivilegiadas; As mulheres negras procurando sempre articular as esferas locais e globais de mobilização de recursos econômicos e políticos ; Formação do Conselho estadual da Condição Feminina de São Paulo sem ter nenhuma mulher negra como integrante; Políticas publicas de promoção da Igualdade de gênero e combate à discriminação contra as mulheres; Criação das delegacias Especializadas no atendimento à mulher (DEAMS) e treinamento de profissionais da segurança pública; Conquistas feministas com apoio dos encontros estaduais de mulheres negras; 

Direitos sociais garantidos pela constituição; experiência na ação coletiva; Fórum Nacional Mundial em prol da articulação das Mulheres Negras; Discriminação especialmente de gênero, raça, etnia, de credo religioso e de condições socioeconômicas.


Trechos do Fichamento de um 

Aluno do Curso em Gestão de 

Políticas Públicas em Gênero

 e Raça - GPPGR/UFES

Unidade 3 – Desigualdades raciais e realização socioeconômica: uma análise das mudanças recentes


O entendimento dos conceitos utilizados em nossa sociedade para discriminar, mascarar ou ocultar o racismo é um passo fundamental na construção de uma educação antirracista. Atualmente, é muito comum, ao falarmos em raça, sermos acusados de racistas, como se a simples menção ao conceito significasse uma aceitação do que ele historicamente significou e ainda significa. Fugir ao debate não resolve o problema, pois o racismo e os seus efeitos podem ser percebidos no nosso cotidiano, na escola e fora dela.
Os conceitos de raça e etnia ainda hoje são bastante controversos, especialmente quando utilizados como sinônimos e que ainda persiste no vocabulário de muitas pessoas. É necessário desvendar a história e os fundamentos políticos destes conceitos para que as dúvidas possam ser dirimidas.
Desigualdade racial no Brasil tem sido o enfoque de numerosos estudos nos últimos anos. O tema tornou-se importante para o debate sobre oportunidades socioeconômicas depois de quase ter sido esquecido por cientistas sociais. A razão principal para isto era que as relações raciais no Brasil vinham sendo vistas dentro de um contexto de “democracia racial”, no qual se assumia que todas as raças viviam juntas sem nenhum conflito ou desigualdade social diretamente associada a relações raciais, mas a relações de classes. Assim, a noção sobre o povo brasileiro incluía “povo pacífico” ou “o homem cordial”. Para essa visão, embutida na natureza da sociedade há uma tendência para conciliação e concerto em lugar de conflito. Um exemplo disto é, até recentemente, a insipiente representação de movimentos raciais e/ou étnicos que reivindicariam a igualdade de oportunidades sociais para grupos raciais distintos (Hasenbalg e Valle Silva, 1988).
Até o século XVIII, o conceito de raça foi um termo referente a grupos com ancestrais comuns, não sendo utilizado para designar a natureza dos indivíduos pertencentes a esses grupos. A explicação das diferenças físicas entre os homens era apoiada no paradigma cristão. Nesta visão, algumas sociedades não seriam destinadas ao desenvolvimento e ao progresso pelo fato de seus habitantes serem classificados como “pagãos, hereges”. Outro aspecto importante dessa visão é a dedução de que europeus, asiáticos e africanos deveriam possuir ancestrais distintos uma vez que as diferenças entre eles se repetiam em sucessivas gerações.  Na Antiguidade, gregos e romanos notavam diferenças de cor entre os indivíduos, mas essas diferenças eram atribuídas ao clima. Os negros seriam escuros porque o sol havia bronzeado as suas peles e frisado os seus cabelos. Os brancos seriam claros por falta de sol. A cor dos membros de um grupo, até então, não era destacada como o indicativo de sua superioridade ou inferioridade. O que realmente importava não era a cor da pele dos povos e, sim, se eles eram “civilizados” ou “bárbaros”, diferenciação ligada à cultura, linguagem ou religião.  Na região Mediterrânea, havia “civilizados” e “bárbaros” de todas as cores.
A estratificação social: indica a existência de diferenças de desigualdades entre pessoas de uma determinada sociedade. Ela indica a existência de grupos de pessoas que ocupam posições diferentes;
Estratificação econômica: baseada na posse de bens materiais, fazendo com que haja pessoas ricas, pobres e em situação intermediária;
Estratificação política: baseada na situação de mando na sociedade (grupos que têm e grupos que não têm poder);
Estratificação profissional: baseada nos diferentes graus de importância atribuídos a cada profissional pela sociedade;
A estratificação social é a separação da sociedade em grupos de indivíduos que apresentam características parecidas, Ex: negros, brancos, católicos, protestantes, homem, mulher, pobres, ricos, etc.
A estratificação é fruto das desigualdades sociais, ou seja, existe estratificação porque existem desigualdades.
A estratificação social esteve presente em todas as épocas, desde os primeiros grupos de indivíduos até os nossos dias. Ela apenas mudou de forma, de intensidade e de causas.
Teoria Econômica Neoclássica - A Escola Neoclássica surge na década de 1870 e introduz, na teoria clássica, novas produções do pensamento econômico, principalmente os Marginalistas, como William Stanley Jevons, Léon Walras e Karl Menger, que propuseram novos modelos teóricos acerca do valor, da utilidade, do trabalho, da produção, da escassez, da formação dos custos e dos preços. Para os Neoclássicos, o foco mais importante era o funcionamento do sistema de mercado e seu papel como alocador eficaz de recursos.
Racialmente endogâmicos - casamentos entre pessoas pertencentes à mesma raça/etnia.
Mobilidade ascendente - movimento de ascensão e elevação na escala social.
Teoria Econômica Neoclássica - A Escola Neoclássica surge na década de 1870 e introduz, na teoria clássica, novas produções do pensamento econômico, principalmente os Marginalistas, como William Stanley Jevons, Léon Walras e Karl Menger, que propuseram novos modelos teóricos acerca do valor, da utilidade, do trabalho, da produção, da escassez, da formação dos custos e dos preços. Para os Neoclássicos, o foco mais importante era o funcionamento do sistema de mercado e seu papel como alocador eficaz de recursos.
Regulação do Trabalho Doméstico - Em junho de 2010, será realizada a 99ª Conferência Internacional do Trabalho (OIT) para discussão da adoção de um instrumento internacional de regulação do trabalho doméstico. O debate se baseia no documento Trabalho decente para trabalhadoras domésticas, publicação que sistematiza os questionários respondidos pelos estados membros da OIT sobre as condições do trabalho doméstico em cada país. Nesse documento, a FENATRAD - Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas - se destaca por ter sido uma das poucas organizações de trabalhadoras domésticas do mundo que participou do processo de consultas.
Autonomização - processo que se governa e se reproduz por si mesmo e por suas próprias leis, de forma independente.
Autonomização de status - Corresponde à fase do ciclo de vida na qual o/a jovem começa a adquirir status social próprio, envolvendo primordialmente duas dimensões: acesso ao mercado de trabalho e escolha marital (que corresponde aos diferentes arranjos na constituição de uma nova família).
Realização de status - fase correspondente ao momento no qual o indivíduo assume um status próprio e autônomo definido a partir da sua posição na estrutura sócio-ocupacional e da distribuição da renda pessoal.
Não há solução em curto prazo para esses problemas. Para que a essa situação seja vencida, é necessário vontade política e compromisso com os valores da igualdade social e dos direitos humanos; uma política econômica adequada, que gere recursos; um setor público eficiente, competente responsável no uso dos recursos que recebe da sociedade; e políticas específicas na área da educação, da saúde, do trabalho, da proteção à infância, e do combate à discriminação social, e outras. Tudo isto é fácil de dizer, e difícil de fazer. A construção de uma sociedade competente, responsável, comprometida com os valores de equidade de justiça social. O caminho é longo, mas podemos muito contribuir na criação e execução de projetos que permitam a conscientização sobre a igualdade. Trabalhar junto com as entidades políticas na criação de leis que valorizem o direito, bem como as suas habilidades e potencialidades. Participar de movimentos sociais, trabalhar como mediadora entre escola, aluno, pais e comunidade estabelecendo relações entre todos, incentivando os a contribuir nesse processo de promoção à igualdade, da melhor maneira possível.